4 de Abril: Paz Não é só silêncio de armas, é maturidade de consciências

Por: Fernandes Manuel | Portal Psicologia 24 Horas Tempo de leitura: ~5 minutos A paz que Angola vive desde 4 de Abril de 2002 exigiu cedências, contenção e negociação. Mas há algo que ainda entristece: a tendência de alguns sectores para alimentar suspeitas, especulação e leituras delirantes sobre tudo. Nesta reflexão alusiva ao Dia da Paz, Fernandes Manuel defende que não basta calar as armas é preciso desarmar as mentes. Porque a verdadeira reconciliação passa também pelo perdão interior, pelo reconhecimento dos erros e por uma nova mentalidade: mais equilibrada, mais ética e menos viciada em suspeitas deliberadas. A guerra já era. A paz persiste. Agora falta fazer com que a mentalidade também assine o seu próprio acordo de reconciliação.

4 de Abril: Paz Não é só silêncio de armas, é maturidade de consciências

4 de Abril não é apenas uma data histórica.
É um chamamento moral.
É a prova de que, mesmo depois da dor, da divisão, do sangue, da perda e do luto, ainda é possível sentar à mesa, reconhecer limites, negociar e escolher a vida.

A paz que Angola vive desde 4 de Abril de 2002 não caiu do céu como milagre pronto.
Ela exigiu cedências.
Exigiu contenção.
Exigiu que alguém soubesse perder sem destruir tudo, e que alguém soubesse vencer sem humilhar totalmente o outro.
E é justamente aí que mora a grandeza da reconciliação: quando se percebe que, para o país viver, ninguém pode continuar a ganhar sozinho.

No fundo, a paz verdadeira nasce quando os homens entendem que o ataque prolonga feridas, a retirada covarde adia soluções, mas a negociação assertiva constrói pontes.
Entre as três vias do conflito — retirada, ataque e negociação — é esta última que salva povos, preserva futuros e devolve dignidade à convivência humana.

Perdoar, por isso, não é um gesto pequeno.
Também não é fraqueza.
Perdoar é libertação interior.
Quem não perdoa continua algemado ao acto que sofreu.
Carrega no peito o peso do passado e transforma a própria alma numa prisão.
Perdoar não apaga a história, mas impede que a história continue a sangrar dentro de nós.

Reconhecer erros também é grandeza.
Nenhuma reconciliação séria se sustenta sem verdade, sem memória e sem humildade.
Errar faz parte da condição humana.
O que não pode fazer parte da nossa identidade colectiva é a incapacidade de aprender, corrigir e evoluir.

Mas há algo que ainda entristece.
É esta tendência perigosa de alguns sectores para alimentar suspeitas, intrigas e leituras delirantes sobre tudo.
Ultimamente, em Angola, parece que já não se admite a morte natural, a doença, a fragilidade humana, o limite biológico.
Quando alguém morre ou adoece, surgem logo os “especialistas” de ocasião, os analistas sem prudência, os fabricantes de versões, os pseudo-entendidos com suas pseudo-autópsias morais e sociais.
Em vez de serenidade, espalha-se especulação.
Em vez de respeito, fabrica-se ruído.
Em vez de luto, promove-se teatro.

Isto é sinal de que a paz política precisa ser acompanhada por uma paz mental e uma paz cultural.
Não basta termos calado as armas; é preciso desarmar as mentes.
Não basta celebrar a reconciliação; é preciso praticá-la no discurso, no olhar, na interpretação dos factos e no respeito pela dignidade humana.

Nem tudo é perseguição.
Nem toda ocorrência é conspiração.
Nem toda morte é mistério fabricado.
Às vezes, a vida apenas cumpre a sua lei.
E amadurecer como nação também passa por aceitar com seriedade aquilo que é natural, sem transformar toda dor em palco para agendas ocultas, ressentimentos ou manipulação emocional.

Angola precisa continuar a reconciliar-se — não apenas entre partidos, grupos ou memórias de guerra — mas também entre o que sente e o que pensa, entre o que sofreu e o que deseja construir.
Precisamos de uma nova mentalidade: mais equilibrada, mais ética, mais serena e menos viciada em suspeitas deliberadas.

Na cruz, Cristo venceu não pelo ataque, mas pelo amor consciente.
Venceu não porque evitou a dor, mas porque não deixou que a dor destruísse o sentido do perdão.
Daí a grande lição:
perdoar não é render-se ao mal; é recusar-se a reproduzi-lo.

Neste 4 de Abril, o apelo é simples e profundo:
que cada angolano faça a sua parte.
Que haja menos veneno nas palavras, menos julgamento precipitado, menos sede de escândalo e mais compromisso com a verdade, com a paz interior e com a reconciliação real.

Porque a guerra já era.
A paz persiste.
Agora falta fazer com que a mentalidade também assine o seu próprio acordo de reconciliação.
FM