Adolescentes: por que agem por impulso, desafiam regras e mudam de humor tão depressa?

Por: Redação | Portal Psicologia 24 Horas |Tempo de leitura: ~4 minutos. Por que os adolescentes agem por impulso, desafiam regras e mudam de humor com tanta rapidez? A Neurociência tem uma resposta: o cérebro ainda está em construção. Estudos de Giedd et al. (1999) e Arain et al. (2013) mostram que o córtex pré-frontal, responsável pelo controlo de impulsos e pela tomada de decisões, só amadurece por completo entre o final da casa dos vinte e o início dos trinta anos. Enquanto isso, o sistema límbico, ligado às emoções e à recompensa, já está em plena actividade, um desfasamento que Casey (2008) e Steinberg (2008) descrevem como o "modelo dos dois sistemas". Saiba o que a ciência revela sobre esta fase de enorme potencial e como pais e educadores podem ajudar.

Adolescentes: por que agem por impulso, desafiam regras e mudam de humor tão depressa?

Adolescentes: por que agem por impulso, desafiam regras e mudam de humor tão depressa?

 

Embora estas afirmações pareçam fazer sentido à primeira vista, a Neurociência mostra que a realidade é mais complexa do que imaginamos. Muitos dos comportamentos típicos da adolescência têm uma explicação biológica: o cérebro ainda está em desenvolvimento.

Um adolescente pode ter a altura, a voz e a aparência de um adulto. Por dentro, porém, o seu cérebro continua a passar por transformações estruturais e funcionais profundas mudanças que influenciam diretamente a forma como pensa, sente, aprende e decide (Arain et al., 2013; Giedd et al., 1999).

Um cérebro ainda "em construção"

Uma das últimas regiões cerebrais a atingir a maturidade é o córtex pré-frontal, situado na parte da frente da cabeça. É o verdadeiro "centro de comando" do cérebro, responsável por capacidades como planear antes de agir, controlar impulsos, regular emoções, resolver problemas, organizar prioridades, avaliar riscos e consequências, e tomar decisões responsáveis.

Estudos longitudinais de neuroimagem mostram que esta região só atinge a maturidade estrutural completa entre o final dos vinte e o início dos trinta anos, muito depois de outras áreas do cérebro (Giedd et al., 1999; Arain et al., 2013). Foulkes e Blakemore (2018), numa revisão publicada na Nature Neuroscience, sublinham ainda que este processo não é uniforme: varia significativamente de adolescente para adolescente, consoante factores como o ambiente social, a cultura e o grupo de pares.

Na prática, isto significa que um adolescente pode compreender perfeitamente o que é certo ou errado o raciocínio moral amadurece relactivamente cedo sem ainda possuir a mesma capacidade de um adulto para travar um impulso, sobretudo quando a emoção está ao rubro.

 

Emoção primeiro, razão depois

Enquanto o córtex pré-frontal ainda amadurece lentamente, outra região está particularmente activa nesta fase: o sistema límbico, ligado às emoções, à motivação e à sensação de recompensa.

Este desfasamento entre um sistema emocional que amadurece cedo e um sistema de controlo que amadurece tarde é conhecido na literatura científica como "modelo dos dois sistemas" (dual systems model) e foi proposto de forma independente pelas equipas de B. J. Casey e de Laurence Steinberg (Casey, 2008; Steinberg, 2008). Segundo este modelo, os adolescentes não arriscam mais por serem irracionais, mas porque o sistema que os atrai para a recompensa e a novidade amadurece muito antes do sistema que deveria travá-lo.

Este desequilíbrio ajuda a explicar comportamentos característicos da fase: maior impulsividade, procura de novas experiências, necessidade de aceitação pelos amigos, maior sensibilidade às críticas, tendência para assumir riscos e mudanças rápidas de humor. Em situações de pressão social, é frequente que a decisão seja guiada pela emoção do momento e não por uma análise cuidada das consequências (Dahl, 2004).

 

Porque gostam tanto de correr riscos?

Experimentar coisas novas faz parte de um desenvolvimento saudável. O cérebro adolescente responde de forma particularmente intensa à libertação de dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa (Dahl, 2004). Esta sensibilidade aumentada alimenta a curiosidade, a criatividade e a motivação para explorar o mundo características essenciais para a construção da autonomia.

O reverso da medalha é que essa mesma sensibilidade pode favorecer comportamentos de risco quando faltam limites e supervisão: condução imprudente, consumo de álcool ou outras substâncias, desafios perigosos nas redes sociais e decisões impulsivas tomadas sob pressão do grupo.

 

Uma janela de oportunidade para aprender

Apesar dos desafios, esta é também uma das fases mais férteis do desenvolvimento humano. O cérebro adolescente apresenta uma elevada plasticidade uma capacidade extraordinária de criar e reforçar ligações entre neurónios. Tudo aquilo que o adolescente pratica com regularidade tende a fortalecer os circuitos cerebrais correspondentes (Arain et al., 2013).

Esta é, por isso, uma fase privilegiada para desenvolver competências sociais, inteligência emocional, hábitos de estudo, pensamento crítico, prática desportiva, competências artísticas, autocontrolo e sentido de responsabilidade. Pela mesma lógica, hábitos prejudiciais também se consolidam com facilidade nesta idade, o que reforça a importância de ambientes familiares e escolares saudáveis.

O papel dos pais e educadores

Conhecer o funcionamento do cérebro adolescente não serve para justificar comportamentos inadequados, mas para compreender que a maturidade emocional se constrói gradualmente e que os adolescentes precisam de orientação consistente enquanto isso acontece.

A investigação sobre estilos parentais é bastante clara quanto ao que ajuda. Numa meta-análise que reuniu dados de mais de 1400 estudos, Pinquart (2017) verificou que o afeto parental, o acompanhamento próximo, a promoção gradual da autonomia e o estilo parental autoritativo que combina exigência com afeto estão associados a menos comportamentos de risco em crianças e adolescentes. Em contraste, o controlo excessivo, o controlo psicológico e a negligência associam-se a mais problemas de comportamento.

Na prática, pais e educadores fazem a diferença quando estabelecem regras claras e coerentes, explicam as consequências das escolhas, escutam sem julgar precipitadamente, valorizam o esforço e não apenas os resultados, incentivam a autonomia progressiva, servem como modelos positivos de comportamento e mantêm uma comunicação aberta e respeitosa. Adolescentes que crescem em ambientes com afeto, diálogo e limites consistentes apresentam, em geral, menor probabilidade de desenvolver comportamentos de risco e maior capacidade para enfrentar desafios ao longo da vida (Pinquart, 2017).

O que a ciência nos ensina

A adolescência não deve ser vista apenas como uma fase de conflitos. É um período de enorme potencial para a aprendizagem, a criatividade, a construção da identidade e o desenvolvimento de competências que acompanharão a pessoa durante toda a vida adulta.

Compreender que o cérebro ainda está em maturação permite substituir a crítica constante por estratégias educativas mais eficazes, promovendo relações familiares mais saudáveis e protegendo a saúde mental dos jovens. 

Assim, a pergunta mais importante deixa então de ser "porque é que este adolescente age assim?" e passa a ser: "como posso ajudá-lo a desenvolver as competências de que ainda está a precisar?"

Essa mudança de perspetiva pode transformar profundamente a relação entre adultos e adolescentes.

 

Referências

Arain, M., Haque, M., Johal, L., Mathur, P., Nel, W., Rais, A., Sandhu, R., & Sharma, S. (2013). Maturation of the adolescent brain. Neuropsychiatric Disease and Treatment, 9, 449–461. https://doi.org/10.2147/NDT.S39776

Casey, B. J. (2008). The adolescent brain. Annals of the New York Academy of Sciences, 1124(1), 111–126.

Dahl, R. E. (2004). Adolescent brain development: A period of vulnerabilities and opportunities. Annals of the New York Academy of Sciences, 1021(1), 1–22.

Foulkes, L., & Blakemore, S.-J. (2018). Studying individual differences in human adolescent brain development. Nature Neuroscience, 21(3), 315–323.

Giedd, J. N., Blumenthal, J., Jeffries, N. O., Castellanos, F. X., Liu, H., Zijdenbos, A., Paus, T., Evans, A. C., & Rapoport, J. L. (1999). Brain development during childhood and adolescence: A longitudinal MRI study. Nature Neuroscience, 2(10), 861–863.

Pinquart, M. (2017). Associations of parenting dimensions and styles with externalizing problems of children and adolescents: An updated meta-analysis. Developmental Psychology, 53(5), 873–932.

Steinberg, L. (2008). A social neuroscience perspective on adolescent risk-taking. Developmental Review, 28(1), 78–106