A ciência por detrás da chamada “hipotensão ortostática”
Por: Redacção Portal Psicologia 24 Horas | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~4 minutos. A sensação de cabeça leve ao levantar da cama é familiar para milhões de pessoas, mas nem sempre é inofensiva. Chamada hipotensão ortostática, esta descida temporária da pressão arterial activa mecanismos automáticos do sistema nervoso que, quando falham, podem provocar tonturas, desmaios e quedas com consequências graves. A cardiologista Alyson Kelley-Hedgepeth, do Brigham and Women's Hospital (Harvard), alerta que a condição merece avaliação activa sobretudo em idosos e hipertensos. O neurologista Roy Freeman, do Beth Israel Deaconess Medical Center, vai mais longe: "As pessoas podem cair e fracturar a anca ou outros ossos." Descubra o que acontece no seu corpo, quando deve preocupar-se e o que a ciência recomenda para prevenir.
A ciência por detrás da chamada “hipotensão ortostática”
Levanta-se da cama demasiado depressa, dá dois passos e, de repente, sente a cabeça leve, a visão escurece por instantes e o corpo parece perder equilíbrio. Para milhões de pessoas, esta sensação é familiar e, na maioria dos casos, tem uma explicação perfeitamente identificável pela medicina: a chamada hipotensão ortostática, também conhecida como hipotensão postural.
Trata-se de uma descida temporária da pressão arterial quando o corpo passa rapidamente da posição deitada ou sentada para a posição de pé. Embora seja frequentemente benigno, o fenómeno pode, em certas circunstâncias, indicar problemas cardiovasculares, neurológicos ou metabólicos mais sérios.
O que acontece no corpo quando nos levantamos?
Ao levantarmo-nos, a gravidade faz com que parte do sangue desça para as pernas e para a zona abdominal. Isso reduz momentaneamente a quantidade de sangue que regressa ao coração e, consequentemente, diminui o fluxo sanguíneo que chega ao cérebro. É precisamente essa breve redução de oxigenação cerebral que provoca tonturas, sensação de fraqueza ou visão turva.
Em condições normais, o organismo reage quase de imediato. Pequenos sensores localizados nas artérias os chamados barorreceptores detectam a descida da pressão arterial e enviam sinais ao cérebro. O coração acelera, os vasos sanguíneos contraem-se e a pressão estabiliza em poucos segundos. Quando este mecanismo falha ou responde lentamente, surgem os sintomas.
Segundo a Mayo Clinic, a hipotensão ortostática pode manifestar-se através de:
- tonturas;
- sensação de desmaio;
- visão desfocada;
- fraqueza súbita;
- confusão momentânea;
- síncope (desmaio).
Porque é mais comum em algumas pessoas?
Os especialistas explicam que este fenómeno pode surgir em qualquer idade, mas torna-se mais frequente em idosos, pessoas desidratadas e indivíduos medicados para hipertensão ou doenças cardíacas.
A jornalista científica Julie Corliss, da Harvard Health Publishing, refere que “a sensação de cabeça leve após nos levantarmos acontece à maioria das pessoas pelo menos ocasionalmente”. Contudo, quando os episódios são frequentes ou prolongados, podem representar um sinal clínico relevante.
A cardiologista Alyson Kelley-Hedgepeth, do Brigham and Women’s Hospital, afiliado à Harvard Medical School, sublinha que as actuais orientações médicas recomendam avaliar activamente esta condição, sobretudo em pessoas mais velhas e com hipertensão arterial.
Entre as principais causas identificadas pela literatura médica estão:
- desidratação;
- longos períodos de repouso;
- calor excessivo;
- anemia;
- diabetes;
- doenças neurológicas, como Parkinson;
- problemas cardíacos;
- efeitos secundários de medicamentos.
Quando a tontura deixa de ser “normal”?
Os especialistas alertam que episódios ocasionais raramente representam perigo. Porém, existem sinais de alarme que justificam avaliação médica.
De acordo com o Manual MSD, deve procurar-se ajuda médica quando:
- as tonturas acontecem frequentemente;
- existem desmaios;
- há dor no peito;
- surgem palpitações;
- a pessoa cai ou perde consciência;
- os sintomas aparecem mesmo sem mudança brusca de posição.
O neurologista Roy Freeman, especialista em hipotensão ortostática no Beth Israel Deaconess Medical Center, afirma que as consequências podem ser sérias, sobretudo em idosos: “As pessoas podem cair e fracturar a anca ou outros ossos”.
O papel da desidratação e do estilo de vida
Um dos factores mais frequentemente associados à hipotensão ortostática é a desidratação. Quando o organismo tem menos volume sanguíneo disponível, torna-se mais difícil manter uma pressão arterial estável durante mudanças rápidas de postura.
Além disso, noites mal dormidas, consumo excessivo de álcool, jejum prolongado e ambientes muito quentes podem agravar o problema.
Especialistas recomendam medidas simples:
- levantar-se devagar;
- beber água regularmente;
- evitar mudanças bruscas de posição;
- praticar actividade física moderada;
- reduzir períodos prolongados sentado ou deitado;
- usar meias de compressão em casos específicos.
O cérebro “desliga-se” por instantes?
Embora a expressão seja popular, os médicos esclarecem que o cérebro não chega verdadeiramente a “desligar”. O que acontece é uma redução transitória do fluxo sanguíneo cerebral. Em segundos, o organismo tenta compensar essa quebra através de mecanismos automáticos do sistema nervoso autónomo.
Quando essa compensação ocorre rapidamente, a tontura desaparece quase de imediato. Mas se o organismo não conseguir recuperar a pressão arterial com eficácia, a pessoa pode perder os sentidos.
Um sintoma comum, mas que merece atenção
A ciência considera hoje que a hipotensão ortostática não deve ser banalizada. Apesar de, na maioria das vezes, ser apenas um reflexo passageiro da adaptação do corpo à gravidade, também pode funcionar como um importante sinal clínico precoce.
A investigação médica mostra que episódios persistentes estão associados a maior risco de quedas, lesões e até doenças cardiovasculares.
Por isso, sentir tonturas ocasionais ao levantar-se pode ser perfeitamente normal. Mas quando o corpo começa a repetir frequentemente esse aviso, talvez esteja apenas a pedir aquilo que a medicina recomenda há décadas: atenção, hidratação e avaliação clínica adequada.