Racismo intracomunitário e colorismo nas redes sociais: uma leitura da Psicologia Social e do Comportamento
Por: Joyceline Vatuva | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~5 minutos. Episódios recentes envolvendo bebés de figuras públicas negras angolanas expuseram um fenómeno psicossocial pouco discutido: o colorismo e o racismo intracomunitário. Com base em Hunter (2007), Jones (2000) e Fanon (2008), este artigo analisa como a herança colonial molda padrões de beleza internalizados, mesmo entre membros do grupo discriminado. Explore os mecanismos de internalização de estereótipos, viés implícito e dissociação identitária que sustentam este ciclo. Saiba como a Psicologia do Comportamento propõe que estes padrões, por serem aprendidos, também podem ser desaprendidos.
Racismo intracomunitário e colorismo nas redes sociais: uma leitura da Psicologia Social e do Comportamento
Por Joyceline Vatuva – Psicóloga Clínica | Psicologia 24h
O presente artigo analisa a ocorrência de comentários depreciativos dirigidos a bebés e a pessoas de pele escura em redes sociais, particularmente em contextos de exposição de figuras públicas negras. A partir da Psicologia Social e da Psicologia do Comportamento, discute-se o fenómeno do racismo intracomunitário, o colorismo e a internalização de padrões estéticos herdados do colonialismo. O objectivo é compreender os mecanismos psicológicos que levam indivíduos negros a reproduzir, por vezes, discursos depreciativos sobre a própria identidade fenotípica.
Nas últimas semanas, episódios que envolveram a exposição pública de uma bebé filha de figuras públicas negras angolanas reacenderam um debate sensível: a forma como, nas redes sociais, alguns comentários de pessoas negras reproduzem discursos depreciativos sobre a pele escura.
Este fenómeno levanta uma questão psicológica profunda: como é que membros de um grupo historicamente discriminado podem reproduzir, contra si próprios, os mesmos padrões de discriminação que os afectam?
A resposta não é simples nem puramente individual. Trata-se de um fenómeno psicossocial estruturado historicamente, que a Psicologia Social descreve há décadas e que continua a manifestar-se, hoje, num novo palco: o digital.
A herança colonial e a construção da beleza
Do ponto de vista da Psicologia Social, a percepção de beleza e valor não é neutra nem inata. Ela é construída culturalmente e aprendida ao longo do desenvolvimento social, através da família, dos média e das instituições.
Em contextos marcados pela colonização, consolidou-se uma hierarquia simbólica em que fenótipos associados à “brancura” foram historicamente valorizados, enquanto traços fenotípicos africanos incluindo a pele escura, os cabelos crespos e os traços faciais afrodescendentes foram frequentemente desvalorizados ou associados a menor prestígio social (Fanon, 2008).
Com o tempo, esse sistema não permaneceu apenas externo. Tornou-se parte do imaginário colectivo, influenciando preferências estéticas, julgamentos sociais e até padrões de autoestima.
Em Psicanálise e Psicologia Clínica, autoras como Neusa Santos Souza (1983) documentaram, no contexto brasileiro, como a ascensão social de pessoas negras frequentemente convivia com um sofrimento psíquico associado à rejeição da própria negritude um processo que a autora descreveu como uma forma de “embranquecimento” psicológico imposto pela cultura dominante.
Colorismo e racismo intracomunitário
O fenómeno observado nas redes sociais pode ser compreendido através do conceito de colorismo, definido por Hunter (2007) como a estratificação e diferenciação de tratamento entre pessoas do mesmo grupo racial com base no tom de pele, privilegiando sistematicamente quem tem a pele mais clara em áreas como estatuto social, atratividade percebida e oportunidades.
Quando indivíduos negros reproduzem comentários depreciativos sobre a pele escura, não estamos apenas diante de “opiniões pessoais”, mas de uma manifestação do que a literatura chama de racismo intracomunitário, a reprodução de hierarquias raciais dentro do próprio grupo social. No Brasil, autores como Munanga (2019) associam este fenómeno ao ideal histórico de “branqueamento”, segundo o qual a aproximação a padrões estéticos europeus foi, durante gerações, apresentada como sinónimo de ascensão e aceitação social.
Na Psicologia do Comportamento, este padrão pode ser explicado pela aprendizagem social e pela exposição repetida a reforços culturais: indivíduos internalizam normas e reproduzem-nas de forma relativamente automática, mesmo quando estas entram em conflito com a sua própria identidade de pertença (Jones, 2000).
Este tipo de comportamento não surge de forma isolada. Alguns mecanismos psicológicos ajudam a compreendê-lo:
1. Internalização de estereótipos. Ao longo de gerações, mensagens sociais repetidas associaram a proximidade da pele clara à beleza e ao sucesso. Essas crenças podem ser internalizadas de forma inconsciente, tornando-se parte do autoconceito mesmo de quem pertence ao grupo desvalorizado.
2. Viés implícito. Mesmo sem intenção consciente de discriminar, os indivíduos podem activar associações automáticas, negativas ou positivas, baseadas em padrões culturais aprendidos desde a infância um mecanismo amplamente estudado na investigação sobre cognição social e preconceito implícito.
3. Desejo de pertença social. Em contextos onde certos padrões estéticos são mais valorizados, alguns indivíduos podem reproduzir esses discursos como forma de aceitação ou validação social, alinhando-se à norma dominante para evitar a própria exclusão.
4. Dissociação identitária. Em alguns casos, ocorre uma separação psicológica entre o “eu individual” e o “grupo racial”, levando à reprodução de críticas ao próprio grupo como forma de distanciamento simbólico, fenómeno próximo do que Sue (2010) descreve, no contexto das microagressões, como estratégias inconscientes de adaptação a ambientes socialmente hostis.
O impacto psicológico em crianças e figuras públicas
A exposição de bebés e de pessoas de pele escura a comentários depreciativos tem implicações psicológicas relevantes.
Na infância, a construção da identidade está em pleno desenvolvimento, e a exposição directa ou indirecta, através do ambiente familiar e digital a discursos negativos sobre a própria aparência pode influenciar a autoimagem futura, especialmente quando esses discursos são repetidos e socialmente validados por curtidas, partilhas e comentários de concordância.
No caso de figuras públicas, a visibilidade amplifica o impacto simbólico desses comentários, reforçando narrativas sociais sobre o que é, ou não, considerado “aceitável” em termos de aparência narrativas que, segundo a Teoria da Identidade Social de Tajfel e Turner (1986), moldam tanto a autoestima colectiva do grupo quanto à forma como os seus membros se posicionam perante ele.
A análise psicossocial permite identificar três níveis principais, em linha com o modelo proposto por Jones (2000):
Este fenómeno não pode, por isso, ser reduzido a casos pontuais ou a indivíduos isolados, mas deve ser compreendido como expressão de uma estrutura histórica ainda activa no campo simbólico e digital (UNESCO, 2022).
O racismo velado expresso por alguns comentários de pessoas negras contra bebés ou indivíduos de pele escura não deve ser interpretado apenas como contradição individual, mas como reflexo de processos psicológicos e sociais complexos, historicamente construídos.
A Psicologia Social mostra-nos que aquilo que é repetido como norma cultural pode ser internalizado mesmo quando fere a identidade do próprio grupo. A Psicologia do Comportamento, por sua vez, lembra-nos que esses padrões, por serem aprendidos, também podem ser desaprendidos.
Superar este fenómeno exige mais do que condenação moral: requer educação emocional, consciência crítica e reconstrução colectiva dos padrões de beleza e valor humano, libertos das heranças coloniais ainda presentes no imaginário colectivo incluindo no espaço, cada vez mais influente, das redes sociais.
Referências
Fanon, F. (2008). Black skin, white masks (R. Philcox, Trad.). Pluto Press. (Obra original publicada em 1952)
Hunter, M. (2007). The persistent problem of colorism: Skin tone, status, and inequality. Sociology Compass, 1(1), 237–254. https://doi.org/10.1111/j.1751-9020.2007.00006.x
Jones, C. P. (2000). Levels of racism: A theoretical framework and a gardener’s tale. American Journal of Public Health, 90(8), 1212–1215. https://doi.org/10.2105/AJPH.90.8.1212
Munanga, K. (2019). Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade nacional versus identidade negra (Nova ed.). Autêntica.
Souza, N. S. (1983). Tornar-se negro: Ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Edições Graal.
Sue, D. W. (2010). Microaggressions in everyday life: Race, gender, and sexual orientation. Wiley.
Tajfel, H., & Turner, J. C. (1986). The social identity theory of intergroup behavior. Em S. Worchel & W. G. Austin (Eds.), Psychology of intergroup relations (pp. 7–24). Nelson-Hall.
UNESCO. (2022). Roadmap against racism and discrimination. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000382769