Sabias que a primeira impressão se forma em segundos? A ciência mostra que é ainda mais rápido

Por: Redação | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~5 minutos. O mito diz que bastam sete segundos para formar uma primeira impressão. A ciência mostra que a realidade é ainda mais rápida. Num estudo clássico da Universidade de Princeton, Willis e Todorov (2006) demonstraram que 100 milissegundos — menos tempo do que um piscar de olhos — bastam para julgar a confiabilidade e a competência de um rosto desconhecido. Todorov et al. (2005), publicado na revista Science, foram mais longe: com apenas 1 segundo de exposição a um rosto, os participantes previram correctamente o vencedor em cerca de 70% das eleições ao Senado dos EUA analisadas. Saiba porque o cérebro decide tão depressa e o que isso significa para entrevistas, encontros e reuniões.

Sabias que a primeira impressão se forma em segundos? A ciência mostra que é ainda mais rápido

Sabias que a primeira impressão se forma em segundos? A ciência mostra que é ainda mais rápido

É um dos ditos populares mais repetidos: bastam sete segundos para alguém formar uma opinião sobre nós. O número exacto de "7 segundos" não tem uma origem científica sólida não existe um único estudo que o comprove directamente. Mas a boa notícia (ou má, dependendo do ponto de vista) é que a realidade é ainda mais impressionante do que a lenda: a investigação em Psicologia mostra que julgamos os outros muito mais depressa do que isso.

Décimos de segundo bastam

Num estudo já clássico, Willis e Todorov (2006), da Universidade de Princeton, mostraram fotografias de rostos desconhecidos a participantes durante apenas 100 milissegundos menos tempo do que um piscar de olhos e pediram-lhes que avaliassem características como confiabilidade, competência, simpatia e agressividade. Os julgamentos feitos nesse instante praticamente não mudavam quando as pessoas tinham mais tempo para observar o rosto: dar mais tempo tornava as pessoas mais confiantes na sua avaliação, mas não mudava significativamente o veredicto inicial.

Em outro estudo, Todorov e colegas (2005), publicado na revista Science, mostraram rostos de candidatos a eleições dos EUA durante apenas 1 segundo. Só com base nessa impressão de competência, os participantes previram corretamente o vencedor em cerca de 70% das eleições para o Senado analisadas sem saberem quem eram os candidatos ou o que defendiam.

E não é só o rosto: o corpo também "fala" antes de nós

Ambady e Rosenthal (1993) foram ainda mais longe: mostraram a estudantes universitários pequenos vídeos, sem som, de professores a lecionar clips de apenas 30, 15, 10, 5 e até 2 segundos. As avaliações feitas a partir destas "fatias finas" de comportamento não-verbal (o chamado thin slicing) coincidiram fortemente com as avaliações que os alunos desses professores lhes atribuíam depois de um semestre inteiro de aulas. Dois segundos de imagem, sem som, bastaram para prever meses de convivência.

Porque é que o cérebro decide tão depressa?

Esta rapidez não é um defeito, é uma característica do funcionamento cerebral. Formar julgamentos instantâneos sobre desconhecidos são amigáveis ou ameaçadores? competentes ou não? foi, ao longo da evolução, uma vantagem para a sobrevivência. O cérebro usa atalhos mentais (heurísticas) e sinais como expressão facial, postura, tom de voz e contacto visual para preencher rapidamente os espaços em branco sobre uma pessoa que acabou de conhecer.

Estas primeiras impressões também tendem a ser persistentes. Já em 1946, o psicólogo Solomon Asch demonstrou que a informação recebida em primeiro lugar sobre uma pessoa influencia desproporcionalmente a impressão global que formamos dela o chamado "efeito de primazia" funcionando como uma lente que colore a forma como interpretamos tudo o que vem depois.

Porque é que isto importa

Estes achados têm implicações práticas óbvias: numa entrevista de emprego, num primeiro encontro, numa reunião de negócios ou numa chamada de vídeo, a impressão que criamos está largamente formada antes de dizermos a primeira frase completa. Isto não significa que as primeiras impressões sejam sempre correctas  muitas vezes são enviesadas e injustas mas significa que pesam mais do que gostaríamos de admitir, e que vale a pena cuidar de sinais simples: postura aberta, expressão facial serena e contacto visual genuíno.

 

Referências

Ambady, N., & Rosenthal, R. (1993). Half a minute: Predicting teacher evaluations from thin slices of nonverbal behavior and physical attractiveness. Journal of Personality and Social Psychology, 64(3), 431–441.

Asch, S. E. (1946). Forming impressions of personality. Journal of Abnormal and Social Psychology, 41(3), 258–290.

Todorov, A., Mandisodza, A. N., Goren, A., & Hall, C. C. (2005). Inferences of competence from faces predict election outcomes. Science, 308(5728), 1623–1626.

Willis, J., & Todorov, A. (2006). First impressions: Making up your mind after a 100-ms exposure to a face. Psychological Science, 17(7), 592–598