Consumo excessivo de notícias negativas e seus efeitos no cérebro e na saúde mental

Por: Redacção Portal Psicologia 24 Horas | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~4 minutos. Guerras, acidentes, crises e violência chegam todos os dias pelos telemóveis, televisões e grupos de WhatsApp. Segundo a American Psychological Association, a exposição contínua a conteúdos emocionalmente perturbadores aumenta os níveis de ansiedade, estresse e sofrimento psicológico. A neurociência explica que o cérebro possui um "viés de negatividade" que o mantém em alerta constante quando exposto repetidamente a informações ameaçadoras, libertando cortisol e adrenalina de forma prolongada. Num país onde grupos de WhatsApp partilham diariamente vídeos violentos e notícias de crise, o impacto coletivo é ainda mais preocupante. Descubra o que a ciência diz sobre o doomscrolling, o trauma psicológico coletivo e como proteger a tua saúde mental.

Consumo excessivo de notícias negativas e seus efeitos no cérebro e na saúde mental

Consumo excessivo de notícias negativas e seus efeitos no cérebro e na saúde mental

 

Vivemos numa era em que as notícias chegam constantemente através da televisão, rádio, Facebook, WhatsApp, TikTok e portais digitais. Tragédias, violência, guerras, acidentes e crises económicas aparecem diariamente diante dos nossos olhos. Embora estar informado seja importante, estudos científicos mostram que o excesso de exposição a notícias negativas pode prejudicar significativamente a saúde mental (Johnston & Davey, 1997).

Segundo a American Psychological Association, a exposição contínua a conteúdos emocionalmente perturbadores aumenta os níveis de ansiedade, estresse e sofrimento psicológico, especialmente quando as pessoas acompanham notícias negativas durante muitas horas por dia.


Neurociência: o cérebro humano foi programado para detectar ameaças

A neurociência explica que o cérebro humano possui um mecanismo chamado “viés de negatividade”. Esse mecanismo faz com que o cérebro preste mais atenção aos perigos do que às informações positivas, porque, ao longo da evolução humana, identificar ameaças aumentava as chances de sobrevivência (Baumeister et al., 2001).

Quando uma pessoa assiste repetidamente notícias violentas ou alarmantes, a amígdala cerebral, região ligada ao medo e à sobrevivência permanece constantemente ativada. Isso aumenta a libertação de cortisol e adrenalina, hormonas relacionadas ao estresse e ao estado de alerta (LeDoux, 2000).

A exposição prolongada a estímulos negativos pode gerar:

  • Hiperatividade emocional;
  • Ansiedade constante;
  • Dificuldade de relaxamento;
  • Irritabilidade;
  • Alterações no sono;
  • Fadiga mental.

Pesquisas mostram que notícias negativas produzem respostas emocionais mais intensas e permanecem por mais tempo na memória do que notícias positivas (Soroka et al., 2019).


Psicologia do comportamento: o cérebro aprende pela repetição

Na psicologia do comportamento, entende-se que os comportamentos e emoções são influenciados pelos estímulos do ambiente. Quando uma pessoa consome diariamente conteúdos relacionados à violência, medo e tragédia, o cérebro começa a interpretar o mundo como um lugar permanentemente perigoso.

Segundo B. F. Skinner, o comportamento humano é moldado pelas experiências repetidas e pelos estímulos ambientais. Assim, a repetição contínua de notícias negativas fortalece padrões emocionais de medo e hipervigilância.

Além disso, pela teoria da aprendizagem social de Albert Bandura, emoções também podem ser aprendidas por observação. Quando as pessoas observam constantemente sofrimento, violência e pânico nos meios de comunicação, podem internalizar sentimentos semelhantes, mesmo sem viver directamente aquela situação.


O fenómeno do “doomscrolling”

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a estudar o fenómeno chamado doomscrolling, que descreve o hábito de passar horas a consumir notícias negativas nas redes sociais.

Estudos recentes indicam que o doomscrolling está associado ao aumento da ansiedade, exaustão emocional e sintomas depressivos (Anand et al., 2022). Muitas pessoas entram num ciclo psicológico perigoso:

  • Sentem ansiedade;
  • Procuram mais notícias negativas;
  • Ficam emocionalmente piores;
  • Continuam consumindo conteúdos alarmantes.

Esse ciclo activa continuamente o sistema de ameaça cerebral, mantendo o organismo em estado constante de tensão.

 

Notícias negativas e trauma psicológico coletivo

Durante a pandemia da COVID-19, pesquisas internacionais mostraram que o excesso de notícias relacionadas à doença aumentou significativamente os níveis de sofrimento psicológico (Bendau et al., 2021).

Segundo Holman, Garfin e Silver (2014), pessoas que acompanharam excessivamente notícias traumáticas após atentados e desastres apresentaram níveis de estresse semelhantes aos das pessoas directamente expostas aos eventos.

Isso demonstra que o cérebro pode reagir emocionalmente a acontecimentos vistos na mídia quase como se fossem experiências pessoais.

 

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, entende-se que pensamentos, emoções e comportamentos estão conectados. O excesso de notícias negativas pode fortalecer pensamentos automáticos disfuncionais, como:

  • “o mundo está perdido”;
  • “não há esperança”;
  • “algo ruim vai acontecer”;
  • “ninguém está seguro”.

Segundo Aaron Beck, padrões repetitivos de pensamentos negativos aumentam a vulnerabilidade à ansiedade e à depressão.

Quando o cérebro recebe continuamente informações ameaçadoras, começa a desenvolver interpretações mais pessimistas da realidade.

Redes sociais amplificam emoções negativas

As redes sociais utilizam algoritmos que priorizam conteúdos emocionais, chocantes e sensacionalistas, porque geram mais cliques e maior tempo de permanência nas plataformas.

Além disso, o compartilhamento repetitivo de vídeos violentos e imagens traumáticas em grupos digitais pode funcionar como microtraumas psicológicos repetitivos.

 

O contexto angolano

No contexto angolano, muitas famílias acompanham diariamente notícias relacionadas à crise económica, criminalidade, acidentes e conflitos sociais. Em muitos casos, grupos de WhatsApp compartilham constantemente vídeos violentos, acidentes e conteúdos emocionalmente perturbadores.

Essa exposição excessiva pode aumentar:

  • O medo colectivo;
  • Desesperança;
  • Ansiedade social;
  • Sensação de insegurança;
  • Fadiga mental.

Num país onde muitas pessoas já enfrentam dificuldades económicas e sociais, o excesso de notícias negativas pode agravar ainda mais o sofrimento psicológico da população.

Como proteger a saúde mental

Especialistas recomendam algumas estratégias importantes:

  • Limitar o tempo consumindo notícias;
  • Evitar esse tipo de notícias antes de dormir;
  • Escolher fontes confiáveis;
  • Fazer pausas digitais;
  • Equilibrar conteúdos negativos com conteúdos positivos;
  • Praticar actividade física;
  • Fortalecer relações familiares e sociais;
  • Buscar apoio psicológico quando necessário.

Segundo a American Psychological Association, reduzir a exposição contínua a conteúdos negativos ajuda a diminuir os níveis de estresse e ansiedade.

Conclusão

A ciência demonstra que o cérebro humano não foi feito para consumir tragédias e ameaças durante 24 horas por dia. O excesso de notícias negativas afecta o funcionamento emocional, cognitivo e até físico.

A neurociência mostra que o sistema cerebral de ameaça permanece hiperativado. A psicologia do comportamento explica que o cérebro aprende padrões emocionais pela repetição. E a Terapia Cognitivo-Comportamental demonstra que pensamentos negativos constantes podem aumentar ansiedade e sofrimento psicológico.

Estar informado é importante. Mas preservar a saúde mental também é uma necessidade. Consumir informação com equilíbrio é uma forma de autocuidado emocional.

 

Referências

  • Anand, N. et al. (2022). Impact of doomscrolling on mental health. Journal of Mental Health.
  • Baumeister, R. F. et al. (2001). Bad is stronger than good. Review of General Psychology.
  • Bendau, A. et al. (2021). Associations between COVID-19 related media consumption and symptoms of anxiety. Journal of Public Health.
  • Holman, E. A., Garfin, D. R., & Silver, R. C. (2014). Media’s role in broadcasting acute stress following the Boston Marathon bombings. PNAS.
  • Johnston, W. M., & Davey, G. C. L. (1997). The psychological impact of negative TV news bulletins. British Journal of Psychology.
  • LeDoux, J. (2000). Emotion circuits in the brain. Annual Review of Neuroscience.
  • Soroka, S. et al. (2019). Exposure to negative news and emotional responses. Political Communication.