Ouvir música e ver filmes em volume alto faz mal à saúde mental? O que diz a ciência

Por: Redacção Portal Psicologia 24 Horas | Portal Psicologia 24 Horas Tempo de leitura: ~3 minutos A exposição frequente a sons intensos activa o sistema de stress do organismo, desencadeando a libertação de cortisol e afectando o sono, a concentração e o equilíbrio emocional. Uma revisão publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health associa o ruído elevado ao aumento da ansiedade, irritabilidade e pior qualidade do sono. Evidências do The Lancet (Livingston et al., 2020) e da JAMA Otolaryngology reforçam que a perda auditiva está ligada ao declínio cognitivo e a sintomas depressivos. A boa notícia: a música, em volumes moderados, pode reduzir o stress e melhorar o humor. Descubra onde está o limite e como proteger a tua saúde mental e auditiva com recomendações baseadas em evidência

Ouvir música e ver filmes em volume alto faz mal à saúde mental? O que diz a ciência

Num mundo cada vez mais conectado, o uso de fones de ouvido e o consumo de filmes, música e eventos desportivos em volume elevado tornaram-se parte da rotina diária de muitas pessoas, especialmente em contextos urbanos. A evidência científica em saúde ambiental e neurociência indica que a exposição frequente a sons intensos activa mecanismos de resposta ao estresse no organismo, incluindo a libertação de cortisol, o que pode influenciar estados de irritabilidade, fadiga mental e dificuldade de concentração. Estudos também sugerem que a exposição prolongada ao ruído está associada a alterações na qualidade do sono, um dos pilares fundamentais da regulação emocional e da saúde mental.

No quotidiano, este fenómeno é muitas vezes normalizado seja no transporte público, em casa ou em eventos desportivos  onde o volume elevado é usado para aumentar a imersão ou “abafar” o ambiente externo. No entanto, a ciência demonstra que, quando repetido ao longo do tempo, esse padrão pode contribuir para sobrecarga sensorial e desgaste cognitivo, afectando indirectamente o bem-estar psicológico. Assim, embora o entretenimento sonoro seja uma fonte importante de prazer e socialização, o equilíbrio na intensidade sonora surge como um factor essencial para preservar não apenas a audição, mas também a saúde mental e o funcionamento saudável do cérebro.

Ruído elevado: um estressor invisível

Diversos estudos em saúde ambiental e neurociência indicam que a exposição prolongada a sons intensos activa o sistema de estresse do organismo. Quando o volume está muito alto, o cérebro interpreta esse estímulo como uma possível ameaça, desencadeando a libertação de cortisol, o principal hormônio do estresse.

Uma revisão publicada na revista International Journal of Environmental Research and Public Health aponta que a exposição frequente ao ruído está associada a:

  • Aumento de ansiedade
  • Maior irritabilidade
  • Dificuldades de concentração
  • Pior qualidade do sono
  • Aumento dos níveis de estresse

Esses factores, quando persistentes, contribuem directamente para o desenvolvimento de problemas de saúde mental.

Sobrecarga cerebral e fadiga mental

A ciência diz que o cérebro humano não foi projectado para lidar continuamente com estímulos sonoros intensos. Sons altos exigem maior esforço do sistema auditivo e das áreas cerebrais responsáveis pela atenção.

A exposição prolongada a volumes elevados pode levar a:

  • Fadiga mental
  • Redução da capacidade de foco
  • Aumento da sobrecarga cognitiva

Na prática, isso pode resultar em menor produtividade, irritação e sensação de esgotamento mental ao longo do dia.

 

Audição e saúde emocional: uma ligação directa

Um dos efeitos mais estudados da exposição a sons altos é o dano auditivo. Isso inclui a perda auditiva gradual e o desenvolvimento de zumbido (tinnitus).

Estudos clínicos mostram que pessoas com problemas auditivos têm maior risco de:

  • Isolamento social
  • Sintomas depressivos
  • Ansiedade

Evidências publicadas na revista The Lancet (Livingston et al., 2020) e na JAMA Otolaryngology indicam que a perda auditiva está significativamente associada ao declínio cognitivo e a sintomas depressivos.

Ou seja, o impacto não é apenas físico, ele afecta directamente o bem-estar emocional e a qualidade de vida.

 

 Impacto no sono e no equilíbrio psicológico

Outro ponto crítico é o sono. Sons intensos, especialmente à noite, interferem na arquitetura do sono, reduzindo a sua qualidade.

A  Organização Mundial da Saúde (World Health Organization, 2018) destaca que o ruído ambiental é um dos principais factores que prejudicam o sono, estando também associado ao aumento do estresse e a impactos negativos no bem-estar psicológico, podendo contribuir indiretamente para problemas de saúde mental.

A privação ou fragmentação do sono está fortemente associada a:

  • Alterações de humor
  • Maior vulnerabilidade ao estresse
  • Aumento do risco de depressão

Assim, o uso frequente de volumes altos pode comprometer um dos pilares fundamentais da saúde mental.

 

Nem tudo é prejudicial: o papel do equilíbrio

Importa destacar que a música, por si só, não é prejudicial, pelo contrário. Em volumes moderados, ela pode:

  • Reduzir a ansiedade
  • Melhorar o humor
  • Aumentar a motivação

Estudos em musicoterapia de (Thoma et al., 2013; Koelsch, 2014) demonstram que a música pode reduzir o stress, modular respostas emocionais e activar circuitos cerebrais associados à emoção e recompensa, contribuindo para a regulação emocional e o bem-estar psicológico

A diferença está na intensidade e no tempo de exposição.

 

Recomendações práticas baseadas em evidência

Para proteger a sua saúde mental e auditiva:

  • Utilize a regra 60/60: até 60% do volume por no máximo 60 minutos seguidos (recomendação de saúde auditiva amplamente adoptada por entidades como a Organização Mundial da Saúde)
  • Evite dormir com som alto
  • Faça pausas regulares ao usar fones de ouvido
  • Se precisar aumentar muito o volume, pode ser sinal de ambiente ruidoso prefira isolamento acústico

Um indicador simples: se não consegue ouvir alguém falando ao seu lado, o volume está alto demais.

 

 Conclusão

Em síntese, a evidência científica indica que a exposição a sons em intensidade elevada, sobretudo de forma frequente e prolongada, pode activar respostas fisiológicas de estresse, afectar a qualidade do sono e aumentar factores de risco associados ao comprometimento da saúde mental e cognitiva. Por outro lado, a literatura em neurociência e psicologia demonstra que a música e outras formas de entretenimento sonoro, quando utilizadas em níveis moderados, podem contribuir positivamente para a regulação emocional, redução do estresse e bem-estar psicológico.

Assim, o determinante principal não é o consumo de música ou audiovisual em si, mas a intensidade sonora e o padrão de exposição. O controlo do volume e a gestão do tempo de exposição constituem, portanto, medidas preventivas relevantes para a preservação da função auditiva, do equilíbrio neuropsicológico e da saúde mental de forma integrada

 

Referências

Koelsch, S. (2014). Brain correlates of music-evoked emotions. Nature Reviews Neuroscience, 15(3), 170–180. https://doi.org/10.1038/nrn3666

Livingston, G., Huntley, J., Sommerlad, A., Ames, D., Ballard, C., Banerjee, S., Brayne, C., Burns, A., Cohen-Mansfield, J., Cooper, C., Costafreda, S. G., Dias, A., Fox, N., Gitlin, L. N., Howard, R., Kales, H. C., Kivimäki, M., Larson, E. B., Ogunniyi, A., … Mukadam, N. (2020). Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, 396(10248), 413–446. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30367-6

Thoma, M. V., La Marca, R., Brönnimann, R., Finkel, L., Ehlert, U., & Nater, U. M. (2013). The effect of music on the human stress response. PLoS ONE, 8(8), e70156. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0070156

World Health Organization. (2018). Environmental noise guidelines for the European Region. WHO Regional Office for Europe. https://www.who.int/europe/publications/i/item/9789289053563

Basner, M., Babisch, W., Davis, A., Brink, M., Clark, C., Janssen, S., & Stansfeld, S. (2014). Auditory and non-auditory effects of noise on health. International Journal of Environmental Research and Public Health, 11(9), 10190–10210. https://doi.org/10.3390/ijerph110910190

Lin, F. R., Metter, E. J., O’Brien, R. J., Resnick, S. M., Zonderman, A. B., & Ferrucci, L. (2011). Hearing loss and incident dementia. JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery, 137(2), 214–220. https://doi.org/10.1001/archoto.2011.28