Alexitimia Masculina Normativa! Quando o homem sente, mas não sabe nomear

Por: Joyceline Vatuva | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~4 minutos. A alexitimia masculina normativa, conceito proposto por Ronald Levant, descreve um padrão comum entre homens: a dificuldade aprendida em identificar e verbalizar emoções, resultado de décadas de socialização assente na ideia de que "homem não chora". Este padrão está associado a menor satisfação nas relações íntimas, maior irritabilidade, consumo excessivo de álcool e resistência à psicoterapia. Saiba como a ciência explica este silêncio emocional masculino e por que a prática clínica actual trata esta condição como uma competência a reconstruir, e não como um defeito de carácter.

Alexitimia Masculina Normativa! Quando o homem sente, mas não sabe nomear

Alexitimia Masculina Normativa! Quando o homem sente, mas não sabe nomear

Por:Joyceline Vatuva, Psicóloga Clínica e Consultora

 

O que é a alexitimia

A alexitimia é a dificuldade em identificar, nomear e descrever as próprias emoções. A pessoa sente algo, mas não consegue traduzir essa experiência em palavras, nem distinguir com clareza se está triste, ansiosa ou irritada. Clinicamente, o conceito integra três características centrais: dificuldade em identificar emoções (muitas vezes confundidas com sensações físicas, como interpretar ansiedade como "dor de estômago"); dificuldade em descrevê-las a terceiros, mesmo quando a pessoa percebe que sente algo; e um pensamento orientado para o exterior, com foco em factos e detalhes concretos em detrimento da reflexão sobre a própria vida interior.

 

Uma alexitimia com nome próprio: a versão masculina normativa

No campo da psicologia dos homens e da masculinidade, Ronald Levant propôs um conceito mais específico: a alexitimia masculina normativa (normative male alexithymia, NMA). Trata-se de um padrão de grau leve a moderado, e não de uma patologia isolada, que resulta da forma como muitos rapazes são socializados desde cedo para reprimir a expressão emocional como sintetiza a conhecida frase "homem não chora". O termo "normativa" é intencional: descreve algo estatisticamente comum entre homens, e não um transtorno raro, sendo antes um efeito colateral esperado de normas culturais de masculinidade restritiva (Levant, 2011).

 A diferença central em relação a outras formas de alexitimia é a sua origem. Não nasce de um défice biológico, mas de uma aprendizagem: repetida ao longo dos anos, a desconexão emocional deixa de ser uma escolha consciente e transforma-se num padrão automático. O homem passa genuinamente a ter dificuldade em perceber o que sente, e não apenas em falar sobre isso (Levant et al., 2006; Levant et al., 2014).

Como é avaliada

Levant e colaboradores desenvolveram a Normative Male Alexithymia Scale (NMAS), um instrumento de autorrelato composto por itens como "tenho dificuldade em expressar as minhas necessidades emocionais ao meu parceiro ou parceira" ou "não vejo muito valor em falar sobre os meus sentimentos", respondidos numa escala de concordância. A escala permitiu à investigação medir de forma consistente este padrão e associá-lo empiricamente a diferentes desfechos na vida adulta (Levant et al., 2006).

Consequências na vida adulta

Nas relações íntimas, a dificuldade em identificar e verbalizar emoções está associada a menor satisfação e qualidade de comunicação com o par, bem como a maior medo de intimidade (Levant et al., 2014). Ao nível da saúde mental, quando o sofrimento emocional não é reconhecido nem verbalizado, tende a manifestar-se de outras formas: irritabilidade, isolamento, consumo excessivo de álcool ou comportamento de risco, um padrão coerente com o que a literatura descreve como "depressão mascarada" nos homens (Addis, 2008).

Este padrão também ajuda a explicar por que motivo homens com maior alexitimia normativa evitam mais frequentemente a psicoterapia: a terapia exige precisamente nomear e explorar emoções, a competência que foi menos desenvolvida ao longo da socialização. Uma revisão sistemática recente, que analisou 47 estudos sobre normas de masculinidade tradicional e procura de ajuda, confirma que o estoicismo, a autossuficiência e a restrição emocional constituem uma das principais barreiras à utilização de serviços de saúde mental por homens, em diferentes contextos culturais (Mokhwelepa & Sumbane, 2025).

 

Implicações para a prática clínica

Na prática clínica, esta compreensão muda a abordagem terapêutica: em vez de interpretar o silêncio emocional masculino como resistência ou falta de motivação, muitos terapeutas tratam a alexitimia masculina normativa como uma competência a reconstruir. Trata-se de ensinar, literalmente e passo a passo, o vocabulário emocional  como uma habilidade nunca antes treinada, em vez de pressupor que o homem já possui essa linguagem e simplesmente escolhe não a utilizar. As diretrizes da American Psychological Association para a prática psicológica com rapazes e homens sublinham precisamente este ponto: ajudar os homens a expandir o seu reportório emocional, sem negar as suas identidades masculinas, está associado a maior bem-estar psicológico e a relações mais saudáveis (American Psychological Association & Boys and Men Guidelines Group, 2018).

 

Conclusão

A alexitimia masculina normativa não é uma falha de carácter nem uma escolha deliberada, é o resultado previsível de décadas de socialização emocional restritiva. Reconhecer este padrão, tanto na clínica como no dia a dia, é o primeiro passo para ajudar os homens a reconstruir uma relação mais saudável com as próprias emoções, sem que isso implique negar ou enfraquecer a sua identidade masculina.

 

Referências

Addis, M. E. (2008). Gender and depression in men. Clinical Psychology: Science and Practice, 15(3), 153–168. https://doi.org/10.1111/j.1468-2850.2008.00125.x

American Psychological Association, Boys and Men Guidelines Group. (2018). APA guidelines for psychological practice with boys and men. https://www.apa.org/about/policy/boys-men-practice-guidelines.pdf

Levant, R. F. (2011). Research in the psychology of men and masculinity using the gender role strain paradigm as a framework. American Psychologist, 66(8), 765–776. https://doi.org/10.1037/a0025034

Levant, R. F., Allen, P. A., & Lien, M.-C. (2014). Alexithymia in men: How and when do emotional processing deficiencies occur? Psychology of Men & Masculinity, 15(3), 324–334. https://doi.org/10.1037/a0033860

Levant, R. F., Good, G. E., Cook, S. W., O'Neil, J. M., Smalley, K. B., Owen, K., & Richmond, K. (2006). The Normative Male Alexithymia Scale: Measurement of a gender-linked syndrome. Psychology of Men & Masculinity, 7(4), 212–224. https://doi.org/10.1037/1524-9220.7.4.212

Mokhwelepa, L. W., & Sumbane, G. O. (2025). Men's mental health matters: The impact of traditional masculinity norms on men's willingness to seek mental health support; a systematic review of literature. American Journal of Men's Health, 19. https://doi.org/10.1177/15579883251321670