Por que as pessoas tendem a apegar-se aos erros dos outros?

Por: Redação | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~4 minutos. O viés da negatividade explica por que o cérebro humano dá mais peso aos erros do que às virtudes alheias, um mecanismo com raízes evolutivas ligado à sobrevivência. Estudos como os de Baumeister e colaboradores (2001) e a Teoria da Comparação Social de Festinger (1954) mostram como este padrão protege a autoestima e alimenta julgamentos precipitados. A Terapia Cognitivo-Comportamental propõe um caminho mais equilibrado, baseado na empatia e na flexibilidade cognitiva. Saiba como este fenómeno molda as suas relações e como o pode contornar.

Por que as pessoas tendem a apegar-se aos erros dos outros?

Por que as pessoas tendem a apegar-se aos erros dos outros? A ciência explica


O cérebro presta mais atenção ao negativo

Um único erro pode receber mais atenção do que dezenas de acertos, e isso não acontece por acaso. A Psicologia explica este fenómeno através do viés da negatividade (negativity bias), uma tendência natural do cérebro para atribuir maior importância às experiências negativas do que às positivas. Do ponto de vista evolutivo, prestar atenção às ameaças aumentava as probabilidades de sobrevivência dos nossos antepassados.

Actualmente, esse mesmo mecanismo faz com que erros, falhas e comportamentos inadequados despertem mais interesse, sejam lembrados por mais tempo e tenham maior impacto na forma como julgamos as outras pessoas. Estudos clássicos de Baumeister e colaboradores (2001) demonstram que o mau é mais forte do que o bom, influenciando a memória, a tomada de decisão e os relacionamentos interpessoais.

Julgar o outro também protege a própria autoestima

Outra explicação científica encontra-se na Teoria da Comparação Social, proposta por Leon Festinger (1954). As pessoas avaliam as suas próprias capacidades e o seu valor pessoal comparando-se constantemente com os outros. Quando alguém evidencia um erro alheio, pode experimentar, ainda que inconscientemente, uma sensação temporária de superioridade ou competência.
Além disso, a Psicologia Social descreve o erro fundamental de atribuição (Ross, 1977), fenómeno pelo qual tendemos a atribuir os erros dos outros ao seu carácter (“ele é irresponsável”), enquanto justificamos os nossos próprios erros pelas circunstâncias (“eu estava sob muita pressão”). Este padrão cognitivo favorece críticas severas aos outros e reduz a empatia, especialmente em ambientes competitivos e nas redes sociais.


A Terapia Cognitivo-Comportamental propõe um caminho diferente

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), apegar-se constantemente aos erros dos outros pode refletir pensamentos automáticos, crenças rígidas e distorções cognitivas, como a rotulação, a generalização excessiva e a filtragem mental. A investigação mostra que desenvolver autocompaixão, empatia e flexibilidade cognitiva reduz julgamentos precipitados e melhora a qualidade das relações interpessoais.

Em vez de perguntar “Por que essa pessoa errou?”, a TCC incentiva uma reflexão mais funcional: “Que factores podem ter contribuído para esse comportamento e como posso responder de forma mais equilibrada?”. Afinal, compreender não significa justificar o erro, mas reconhecer que todos os seres humanos são imperfeitos e capazes de aprender, crescer e mudar.


Referências

Baumeister, R. F., Bratslavsky, E., Finkenauer, C., & Vohs, K. D. (2001). Bad is stronger than good. Review of General Psychology, 5(4), 323–370. https://doi.org/10.1037/1089-2680.5.4.323

Festinger, L. (1954). A theory of social comparison processes. Human Relations, 7(2), 117–140. https://doi.org/10.1177/001872675400700202

Ross, L. (1977). The intuitive psychologist and his shortcomings: Distortions in the attribution process. In L. Berkowitz (Ed.), Advances in experimental social psychology (Vol. 10, pp. 173–220). Academic Press.