Consequências psicológicas dos relacionamentos conjugais abusivos
Por: Joyceline Vatuva, Psicóloga Clínica e Terapeuta de Casais | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~5 minutos. O casamento cria uma estrutura de vida partilhada que, quando marcada pelo abuso, torna a violência mais prolongada, mais silenciada e psicologicamente mais devastadora. Uma meta-análise global confirma que mulheres vítimas de violência conjugal enfrentam risco elevado de depressão, ansiedade, stress pós-traumático e ideação suicida (White et al., 2024). A falta de autonomia, a violência sexual conjugal e o envolvimento de familiares agravam ainda mais o quadro depressivo (Masih et al., 2024). Os filhos, mesmo sem serem alvo directo, sofrem sintomas internalizantes e externalizantes ao testemunhar o conflito entre os pais (Doroudchi et al., 2023). Entenda por que a intervenção precisa de envolver toda a família.
Consequências psicológicas dos relacionamentos conjugais abusivos
Por Joyceline Vatuva, Psicóloga clínica e Terapeuta de Casais
O casamento, enquanto vínculo de compromisso, coabitação e frequentemente de dependência económica e familiar, cria um contexto particular em que a violência conjugal tende a ser mais prolongada, mais silenciada e psicologicamente mais devastadora do que outras formas de vitimização.
Diferentemente de relações de curta duração, o abuso conjugal desenvolve-se dentro de uma estrutura de vida partilhada casa, filhos, património, laços familiares alargados que dificulta o reconhecimento do problema e prolonga a exposição ao dano psicológico. Nesse artigo vamos abordar sobre as consequências psicológicas dos relacionamentos conjugais abusivos.
Depressão, ansiedade e stress pós-traumático no cônjuge vitimizado
Uma revisão sistemática e meta-análise recente, que reuniu estudos de todo o mundo, confirmou que as mulheres vítimas de violência conjugal apresentam risco significativamente elevado de depressão, ansiedade, sintomas de stress pós-traumático, ideação e tentativas de suicídio, bem como abuso de álcool, comparativamente com mulheres sem historial de vitimização (White et al., 2024).
O mesmo estudo evidenciou uma variação considerável na prevalência da violência conjugal entre países de baixo e médio rendimento e países de rendimento elevado, o que sugere que fatores estruturais e culturais condicionam tanto a exposição como o acesso a apoio (White et al., 2024).
Num registo clínico convergente, um estudo dedicado especificamente ao abuso conjugal identificou a violência entre cônjuges como um problema de saúde pública com repercussões psicológicas graves, sublinhando o papel central do médico na detecção precoce dos sinais de perturbação de stress pós-traumático em mulheres vítimas de abuso conjugal (Kolsi et al., 2021).
Isolamento, autonomia reduzida e violência sexual conjugal
A literatura qualitativa aponta para dinâmicas específicas do contexto matrimonial que agravam o sofrimento psicológico: a falta de autonomia na tomada de decisões dentro do casamento, o abuso perpetrado ou tolerado por familiares próximos, e a violência sexual conjugal surgem associadas a quadros depressivos mais graves (Masih et al., 2024). Uma revisão sistemática centrada especificamente na violação conjugal confirmou associações estatisticamente significativas com depressão clínica e, em menor grau, com perturbação de stress pós-traumático, revelando ainda que esta forma de abuso permanece amplamente sub-relatada devido a barreiras legais e sociais (Agarwal et al., 2022).
O impacto sobre os filhos: testemunhas silenciosas
A dimensão conjugal do abuso distingue-se ainda por envolver, com frequência, outras vítimas indirectas: os filhos do casal. Uma revisão sistemática sobre crianças expostas à violência doméstica identificou complicações psicológicas e comportamentais relevantes sintomas internalizantes, depressão, sintomas de estresse pós-traumático e comportamentos externalizantes de agressividade mesmo quando a criança não é alvo directo da violência, mas mera testemunha do conflito entre os progenitores (Doroudchi et al., 2023).
Este dado reforça que os efeitos do abuso conjugal ultrapassam o casal, comprometendo o desenvolvimento emocional de toda a estrutura familiar.
A necessidade de intervenção centrada na família
A convergência destes achados sublinha que a intervenção em casos de violência conjugal não pode limitar-se ao tratamento individual da vítima directa, devendo contemplar avaliação e apoio psicológico também aos filhos expostos, bem como estratégias que atendam às barreiras específicas do contexto matrimonial dependência económica, pressão familiar e social para a manutenção do casamento, e o peso do estigma associado à separação.
Referências
Agarwal, N., Abdalla, S. M., Cohen, G. H., & Halim, N. (2022). Marital rape and its impact on the mental health of women in India: A systematic review. PLOS Global Public Health, 2(6), Artigo e0000601. https://doi.org/10.1371/journal.pgph.0000601
Doroudchi, A., Zarenezhad, M., Hosseininezhad, H., Malekpour, A., Ehsaei, Z., Kaboodkhani, R., & Valiei, M. (2023). Psychological complications of the children exposed to domestic violence: A systematic review. Egyptian Journal of Forensic Sciences, 13, Artigo 26. https://doi.org/10.1186/s41935-023-00343-4
Kolsi, S., Hentati, S., Baati, I., & Masmoudi, J. (2021). Spousal abuse and psychological repercussions. European Psychiatry, 64(S1), S610–S611. https://doi.org/10.1192/j.eurpsy.2021.1208
Masih, M., Wagstaff, C., & Kaur-Aujla, H. (2024). The global psychological and physical effects of domestic abuse and violence on South Asian women: A qualitative systematic review. Frontiers in Global Women's Health, 5, Artigo 1365883. https://doi.org/10.3389/fgwh.2024.1365883
White, S. J., Sin, J., Sweeney, A., Salisbury, T., Wahlich, C., Montesinos Guevara, C. M., Gillard, S., Brett, E., Allwright, L., Iqbal, N., Khan, A., Perot, C., Marks, J., & Mantovani, N. (2024). Global prevalence and mental health outcomes of intimate partner violence among women: A systematic review and meta-analysis. Trauma, Violence, & Abuse, 25(1), 494–511. https://doi.org/10.1177/15248380231155529