O impacto do bullying na saúde mental da criança
Por: Redação | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~3 minutos. O bullying afecta cerca de 25% das crianças e adolescentes em todo o mundo, segundo a meta-análise mais recente (Ariani et al., 2025). Longe de ser uma fase passageira, a exposição continuada a este fenómeno associa-se a depressão, ansiedade, baixa autoestima e comportamentos suicidas (Moore et al., 2017). Um estudo longitudinal publicado na JAMA Psychiatry confirma que estas consequências persistem décadas depois (Copeland et al., 2013). Entenda o que a ciência revela sobre o impacto do bullying e o papel protector da família.
O impacto do bullying na saúde mental da criança
O bullying constitui uma das formas de violência mais prevalentes no contexto escolar, estimando-se que cerca de um quarto das crianças e adolescentes em todo o mundo já tenha vivido experiências de vitimização (Ariani et al., 2025).
Longe de se tratar de um episódio isolado ou de uma fase transitória do desenvolvimento, a exposição continuada a este fenómeno representa um factor de risco significativo para o desenvolvimento psicológico infantil, com repercussões que se prolongam frequentemente muito para além do contexto escolar.
Consequências psicológicas a curto e a longo prazo
A evidência científica acumulada ao longo das últimas duas décadas é consistente quanto à gravidade do problema. Uma revisão sistemática e meta-análise de referência concluiu que a vitimização por bullying na infância e adolescência se associa a um conjunto alargado de desfechos adversos, entre os quais depressão, ansiedade, solidão, baixa autoestima, ideação e comportamentos suicidas, pior desempenho escolar e absentismo (Moore et al., 2017).
A dimensão do fenómeno é igualmente preocupante: a meta-análise mais recente, com mais de 600 mil participantes, estima que cerca de 25% das crianças e adolescentes assumam o papel de vítimas, sendo o bullying causador de sofrimento emocional, solidão, ansiedade, depressão, comportamentos autolesivos e pensamentos ou tentativas de suicídio (Ariani et al., 2025).
Particularmente relevante é a persistência destes efeitos ao longo do tempo. Um estudo longitudinal de referência, publicado na JAMA Psychiatry, acompanhou crianças vitimizadas até à idade adulta e confirmou desfechos psiquiátricos adversos que se mantinham décadas depois das experiências de bullying vividas na infância (Copeland et al., 2013). Esta cronicidade sugere que o bullying não deve ser encarado como um problema circunscrito à infância, mas como uma experiência potencialmente traumática com impacto no percurso de vida.
O papel protector da família
A investigação mais recente tem procurado identificar factores que possam mitigar este risco. Uma meta-análise dedicada aos factores parentais modificáveis, que analisou 158 estudos envolvendo mais de 13 mil registos, confirmou que dimensões como o calor afectivo, a monitorização adequada e os estilos parentais protectores estão associados a uma menor probabilidade de vitimização, ao passo que a rejeição parental e o controlo excessivo constituem fatores de risco acrescido (Grama et al., 2024). Este dado reforça a importância de envolver a família nas estratégias de prevenção e intervenção, e não apenas a escola.
A necessidade de resposta articulada
Face à magnitude do problema, a literatura é unânime quanto à necessidade de uma resposta multissectorial e precoce. A identificação atempada de sinais de sofrimento psicológico associados ao bullying, aliada a uma articulação eficaz entre escola, família e serviços de saúde mental, mantém-se como a estratégia mais eficaz para proteger o desenvolvimento emocional das crianças expostas a esta forma de violência, prevenindo a cronificação de consequências que, como a evidência demonstra, podem acompanhar a vítima muito além da infância.
Referências
Ariani, T. A., Putri, A. R., Firdausi, F. A., & Aini, N. (2025). Global prevalence and psychological impact of bullying among children and adolescents: A meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 385, Artigo 119446. https://doi.org/10.1016/j.jad.2025.119446
Copeland, W. E., Wolke, D., Angold, A., & Costello, E. J. (2013). Adult psychiatric outcomes of bullying and being bullied by peers in childhood and adolescence. JAMA Psychiatry, 70(4), 419–426. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2013.504
Grama, D. I., Georgescu, R. D., Coșa, I. M., & Dobrean, A. (2024). Parental risk and protective factors associated with bullying victimization in children and adolescents: A systematic review and meta-analysis. Clinical Child and Family Psychology Review, 27(3), 627–657. https://doi.org/10.1007/s10567-024-00473-8
Moore, S. E., Norman, R. E., Suetani, S., Thomas, H. J., Sly, P. D., & Scott, J. G. (2017). Consequences of bullying victimization in childhood and adolescence: A systematic review and meta-analysis. World Journal of Psychiatry, 7(1), 60–76. https://doi.org/10.5498/wjp.v7.i1.60