Por que você não consegue desligar do trabalho (nem nas férias)?

Por: Redação Psicologia 24 Horas | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~5 minutos. Trabalha a semana inteira, leva tarefas para casa e, mesmo de férias, o e-mail continua aberto na mente. A psicóloga organizacional Sabine Sonnentag, referência mundial em recuperação do estresse, chama isso de "desligamento psicológico" e os seus estudos mostram que é uma das experiências de recuperação mais importantes para o bem-estar. O mecanismo por detrás é a ruminação, agravada pelo home office e pelo telemóvel sempre por perto. Descubra porque quanto mais exigente é o trabalho, mais difícil se torna descansar dele, e o que a ciência recomenda para reconstruir essa fronteira.

Por que você não consegue desligar do trabalho (nem nas férias)?

Por que você não consegue desligar do trabalho (nem nas férias)?

A ciência explica o que trava o seu “desligamento mental” e não, não é falta de força de vontade

Trabalha a semana inteira, leva tarefas para casa no fim de semana e, mesmo de férias, o e-mail continua aberto na mente. Se isso soa familiar, o problema não é falta de disciplina: é um fenómeno psicológico bem documentado, e a ciência já sabe bastante sobre por que ele acontece.

O nome disso é “desligamento psicológico”

A psicóloga organizacional Sabine Sonnentag, referência mundial em recuperação do estresse no trabalho, descreve o “desligamento psicológico” como a sensação de estar mentalmente longe do trabalho durante o tempo livre não pensar nele, não revisá-lo, não resolvê-lo de cabeça. Seus estudos mostram que essa é uma das experiências de recuperação mais importantes para o bem-estar, junto com relaxamento, controlo sobre o próprio tempo e senso de domínio (fazer algo que dá satisfação fora do trabalho). O problema é que, para muita gente, é justamente essa a experiência mais difícil de alcançar.

Por que o cérebro insiste em voltar ao trabalho

O mecanismo por detrás disso é a ruminação: um padrão de pensamento repetitivo em que a mente revisita problemas, antecipa ameaças e busca soluções que nunca se fecham. A mente tolera mal a incerteza um projecto em aberto, uma mensagem sem resposta, uma decisão pendente e tenta “resolver” isso ficando em alerta, mesmo fora do horário de trabalho. Some-se a isso o telemóvel sempre por perto e o home office, que apagou a fronteira física entre escritório e casa: pesquisas indicam que quem trabalha remotamente tem mais dificuldade de desligar justamente por não ter mais uma porta para fechar no fim do expediente.

O paradoxo da recuperação

Há um detalhe cruel nessa história, batizado de “paradoxo da recuperação”: quanto mais estressante e exigente é o trabalho, mais a pessoa precisa desligar e mais difícil isso se torna. É exactamente quando o descanso é mais necessário que ele fica mais inacessível. Some-se a isso outra descoberta incômoda: o efeito positivo das férias sobre o estresse tende a se dissipar rapidamente após o retorno, muitas vezes em questão de dias.

 

A boa notícia

Os estudos também mostram algo tranquilizador: desligar-se do trabalho no tempo livre não torna ninguém menos comprometido ou engajado quando volta a trabalhar pelo contrário, quem consegue esse descanso mental relata mais satisfação com a vida e menos sintomas de esgotamento. Pequenos rituais de transição (trocar de roupa, uma caminhada curta, desligar notificações fora do expediente) e actividades que gerem sensação de domínio no tempo livre, um hobby, um exercício, aprender algo novo, aparecem na literatura como formas eficazes de reconstruir essa fronteira que o mundo do trabalho constante insiste em apagar.

Referência Bibliografia

Sonnentag, “Psychological Detachment From Work During Leisure Time” (2012); Sonnentag & Fritz,
“The stressor-detachment model” (2015); estudos sobre o paradoxo da recuperação e desligamento em home office.