Viés de Confirmação: Por que vemos apenas o que já acreditávamos?  

Por: Redação | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~3 minutos. Porque razão, depois de formar uma opinião, parece encontrar sempre mais provas de que tem razão? A resposta está no viés de confirmação, um dos enviesamentos cognitivos mais estudados em Psicologia, identificado por Peter Wason (1960) e sistematizado por Raymond Nickerson (1998). Este padrão de pensamento influencia desde o que partilha nas redes sociais até à forma como interpreta o comportamento de quem o rodeia, alimentando a polarização e a resistência à mudança de crenças. Entenda como este mecanismo funciona e que estratégias a ciência recomenda para o contrariar.

Viés de Confirmação: Por que vemos apenas o que já acreditávamos?   

Viés de Confirmação: Por que vemos apenas o que já acreditávamos?

 

 

Já reparou como, depois de formar uma opinião sobre algo, parece encontrar cada vez mais provas de que tinha razão? Isso não é coincidência é o viés de confirmação, um dos enviesamentos cognitivos mais estudados em Psicologia.

Definido como a tendência para procurar, interpretar e recordar informação de forma a favorecer crenças ou hipóteses já existentes, este viés não é uma falha ocasional do pensamento: é um padrão persistente que afecta, em maior ou menor grau, todas as pessoas, independentemente do seu nível de instrução ou capacidade intelectual (Nickerson, 1998).

 

O que diz a ciência

O fenómeno foi demonstrado experimentalmente ainda antes de ter este nome consagrado. Numa investigação clássica, Peter Wason (1960) apresentou aos participantes uma sequência numérica e pediu-lhes que descobrissem a regra que a gerava, testando as suas próprias hipóteses com novos exemplos. A maioria optava sistematicamente por testar casos que confirmassem a ideia inicial, evitando testar casos que a pudessem refutar mesmo quando isso teria sido mais informativo. Este "experimento dos 2-4-6", como ficou conhecido, mostrou que preferimos procurar razão a procurar a verdade.

 

No dia a dia

No dia a dia, o viés de confirmação manifesta-se de formas subtis nas redes sociais, tendemos a seguir e a partilhar conteúdos que reforçam aquilo em que já acreditamos; em contexto clínico, um profissional pode valorizar mais os sintomas que confirmam o seu diagnóstico inicial e desvalorizar os que o contradizem; nas relações interpessoais, é frequente interpretar o comportamento do outro à luz da opinião que já formámos sobre ele, ignorando indícios que a desmentiriam. Este enviesamento ajuda a explicar, em parte, a polarização de opiniões e a resistência à mudança de crenças mesmo perante evidência contrária robusta (Nickerson, 1998).

 

Estratégias para atenuar o fenómeno

Reconhecer o viés de confirmação é o primeiro passo para o atenuar. Estratégias como procurar activamente perspectivas discordantes, perguntar "que evidência me faria mudar de ideias?" antes de tirar conclusões, e adiar o julgamento até reunir informação de fontes diversas, são práticas simples que ajudam a contrariar esta tendência natural da mente humana. Afinal, pensar bem não é apenas raciocinar é também estar disposto a procurar aquilo que nos poderia provar errados.

 

Referências Bibliográficas

Nickerson, R. S. (1998). Confirmation bias: A ubiquitous phenomenon in many guises. Review of General Psychology, 2(2), 175–220. https://doi.org/10.1037/1089-2680.2.2.175

Wason, P. C. (1960). On the failure to eliminate hypotheses in a conceptual task. Quarterly Journal of Experimental Psychology, 12(3), 129–140. https://doi.org/10.1080/17470216008416717