Por que sentimos culpa?

Por: Redação | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~4 minutos. A culpa é uma das emoções mais humanas, associada ao córtex pré-frontal e ao processamento moral no cérebro. Estudos de neuroimagem revelam que o córtex orbitofrontal direito e o córtex pré-frontal dorsomedial paracingulado são recrutados durante episódios de culpa (Wagner et al., 2011; Basile et al., 2011). Nem toda a culpa é saudável: investigações associam variantes mal-adaptativas a sintomas depressivos comparáveis aos da vergonha (Kim et al., 2011). Saiba como distinguir a culpa saudável da destrutiva e como geri-la com autocompaixão (Neff, 2003). Descubra o que a ciência revela sobre esta emoção tão incompreendida.

Por que sentimos culpa?

Por que sentimos culpa?
A ciência explica

 

A culpa é uma das emoções mais humanas que existem. Embora seja frequentemente vista como algo negativo, ela desempenha um papel importante no nosso desenvolvimento moral e nas nossas relações.

A culpa surge quando acreditamos que fizemos algo que contrariou os nossos valores, prejudicou outra pessoa ou não correspondeu às nossas próprias expectativas. Em outras palavras, é um sinal de que a nossa consciência está a avaliar as nossas acções.

Sabia que...

O cérebro participa ativamente na experiência da culpa.

Áreas como o córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisões e pelo julgamento moral, e regiões ligadas às emoções, ajudam-nos a refletir sobre as consequências dos nossos comportamentos. Estudos de neuroimagem mostram que episódios de culpa recrutam de forma específica regiões do córtex orbitofrontal direito e do córtex pré-frontal dorsomedial paracingulado, associadas à autorreflexão e à "teoria da mente".

A culpa pode ser saudável.

Quando equilibrada, incentiva-nos a reconhecer os nossos erros, pedir desculpa, reparar danos e agir de forma mais responsável no futuro.

Nem toda a culpa é verdadeira.

Algumas pessoas sentem culpa por acontecimentos que não controlam ou por não conseguirem satisfazer as expectativas dos outros. Esse tipo de culpa pode tornar-se excessivo e afetar a autoestima, a ansiedade e o bem-estar emocional. A investigação mostra que estas variantes mal-adaptativas da culpa se associam a níveis de sintomas depressivos comparáveis aos da vergonha, uma emoção reconhecidamente mais destrutiva para a saúde mental.

A educação influencia a forma como sentimos culpa.

As experiências na infância, os valores familiares, a cultura e as crenças religiosas contribuem para a maneira como interpretamos os nossos comportamentos e avaliamos os nossos erros.

A culpa pode fortalecer os relacionamentos.

Quando reconhecemos um erro e procuramos repará-lo com sinceridade, aumentamos a confiança, a empatia e a qualidade das nossas relações.

Como lidar com a culpa de forma saudável?

Reconheça o erro sem se definir por ele. Errar faz parte da experiência humana.

Pergunte a si mesmo: "Posso fazer algo para reparar esta situação?" Se a resposta for sim, dê esse passo.

Pratique a autocompaixão. Trate-se com a mesma compreensão que teria com alguém de quem gosta.

Aprenda com a experiência em vez de permanecer preso ao passado.

Se a culpa for constante, intensa ou impedir a sua qualidade de vida, procure apoio psicológico.

Lembre-se: sentir culpa não significa que é uma má pessoa. Muitas vezes, significa apenas que se preocupa com os outros e deseja agir de acordo com os seus valores. O mais importante não é nunca errar, mas transformar os erros em oportunidades de crescimento.

Referências

Basile, B., Mancini, F., Macaluso, E., Caltagirone, C., Frackowiak, R. S., & Bozzali, M. (2011). Deontological and altruistic guilt: Evidence for distinct neurobiological substrates. Human Brain Mapping, 32(2), 229–239. https://doi.org/10.1002/hbm.21009

Kim, S., Thibodeau, R., & Jorgensen, R. S. (2011). Shame, guilt, and depressive symptoms: A meta-analytic review. Psychological Bulletin, 137(1), 68–96. https://doi.org/10.1037/a0021466

Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85–101. https://doi.org/10.1080/15298860309032

Wagner, U., N'Diaye, K., Ethofer, T., & Vuilleumier, P. (2011). Guilt-specific processing in the prefrontal cortex. Cerebral Cortex, 21(11), 2461–2470. https://doi.org/10.1093/cercor/bhr016