Meditação e Saúde Mental: O que dizem os estudos mais recentes

Por: Joyceline Chiyaka Vatuva, Psicóloga Clínica (TCC) e Consultora | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~4 minutos. A meditação mindfulness deixou de ser apenas uma prática de bem-estar para se consolidar como intervenção baseada em evidências. Uma meta-análise recente com 84 estudos confirma reduções moderadas na ansiedade e na depressão, resultados replicados em populações clínicas, incluindo doentes cardíacos. O artigo explora os mecanismos neurobiológicos por trás destes efeitos, a durabilidade dos benefícios ao longo do tempo e os limites da evidência científica actual. Saiba como iniciar a prática de forma segura e eficaz.

Meditação e Saúde Mental: O que dizem os estudos mais recentes

Meditação e Saúde Mental: O que dizem os estudos mais recentes

Por Joyceline Chiyaka Vatuva, Psicóloga Clínica (TCC) e consultora

 

A meditação como ferramenta baseada em evidências

A meditação, sobretudo nas suas modalidades baseadas em mindfulness, consolidou-se nos últimos anos como uma das intervenções psicológicas mais investigadas para a promoção da saúde mental.

Uma meta-análise recente, que reuniu 84 estudos com estudantes universitários, verificou efeitos de magnitude moderada na redução da ansiedade (g = -0,58) e da depressão (g = -0,51), confirmando a consistência destes resultados independentemente do desenho metodológico dos ensaios incluídos (Alzahrani & Almohammadi, 2026).

Resultados semelhantes foram observados em populações clínicas: um conjunto de oito ensaios clínicos aleatorizados com doentes cardíacos revelou reduções estatisticamente significativas na ansiedade, na depressão e no stress após a implementação de programas de mindfulness (Abdul Manan et al., 2024). Este padrão de efeitos moderados e replicáveis, presente tanto em amostras não clínicas como em contextos de doença física, reforça a meditação como uma ferramenta transdiagnóstica relevante para a prática clínica.

 

Como a meditação atua no cérebro e na saúde mental

Do ponto de vista dos mecanismos subjacentes, uma revisão selectiva de ensaios clínicos publicada em 2025 sugere que os programas de mindfulness produzem benefícios ao nível da saúde relacionada com o stress através da modulação de processos atencionais, da regulação emocional e da reactividade neuroendócrina ao estresses (Puhlmann & Engert, 2025).

Estes efeitos parecem, além disso, prolongar-se no tempo, uma análise temática realizada três anos após a conclusão de um programa de Redução de stress Baseada em Mindfulness (MBSR) constatou que os participantes mantinham melhorias no bem-estar, sobretudo aqueles que preservavam uma prática informal diária (Sercekman, 2024). Paralelamente, uma meta-análise de 111 ensaios clínicos aleatorizados indica que a prática regular de mindfulness também favorece o funcionamento cognitivo global, com repercussões em domínios como a atenção e a memória de trabalho (Zainal & Newman, 2024). Ainda assim, é importante notar que a relação entre a dose de prática e a magnitude dos benefícios permanece por esclarecer de forma definitiva, sendo esta uma questão que ensaios em curso procuram responder através de desenhos que comparam diferentes durações diárias de prática (Bowles et al., 2025).

 

O que a evidência científica recomenda

Estes dados convidam a uma leitura equilibrada a meditação não é uma solução universal, e a sua eficácia varia consoante a população e o contexto de aplicação, como ilustra a ausência de efeitos significativos sobre a ansiedade e a depressão em mulheres na menopausa num dos estudos analisados (Liu et al., 2023). Ainda assim, o conjunto da evidência científica atual sustenta a integração da meditação mindfulness como complemento válido no acompanhamento psicológico, particularmente na gestão da ansiedade, da depressão e do stress crónico.

 

Recomendações para iniciar a prática

Para quem pretende iniciar esta prática, a recomendação clínica é começar de forma gradual, regular e guiada, privilegiando a consistência diária, ainda que breve, em detrimento de sessões esporádicas e prolongadas, e procurando o acompanhamento de um profissional sempre que a meditação se insira num plano terapêutico mais amplo.

Referências

Abdul Manan, H., Mir, I. A., Humayra, S., Tee, R. Y., & Vasu, D. T. (2024). Effect of mindfulness-based interventions on anxiety, depression, and stress in patients with coronary artery disease: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Frontiers in Psychology, 15, 1435243. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2024.1435243

Bowles, N., Burger, A., Davies, J. N., Simpson, J. A., Galante, J., Dennis, S., Stone, B., & Van Dam, N. T. (2025). Examining the dose-response effects of mindfulness meditation interventions on well-being: Protocol for a randomized controlled trial. JMIR Research Protocols, 14, e72786. https://doi.org/10.2196/72786

Liu, H., Cai, K., Wang, J., & Zhang, H. (2023). The effects of mindfulness-based interventions on anxiety, depression, stress, and mindfulness in menopausal women: A systematic review and meta-analysis. Frontiers in Public Health, 10, 1045642. https://doi.org/10.3389/fpubh.2022.1045642

Puhlmann, L. M. C., & Engert, V. (2025). How mindfulness-based training improves stress-related health: A selective review of randomized clinical trials comparing psychological mechanisms of action. Frontiers in Endocrinology, 16, 1415081. https://doi.org/10.3389/fendo.2025.1415081

Sercekman, M. (2024). Exploring the sustained impact of the Mindfulness-Based Stress Reduction program: A thematic analysis. Frontiers in Psychology, 15, 1347336. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2024.1347336

Alzahrani, M. A., & Almohammadi, I. (2026). The effectiveness of mindfulness-based interventions in reducing anxiety and depression among students: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychologist. https://doi.org/10.1080/13284207.2026.2621341

Zainal, N. H., & Newman, M. G. (2024). Mindfulness enhances cognitive functioning: A meta-analysis of 111 randomized controlled trials. Health Psychology Review, 18(2), 369–395. https://doi.org/10.1080/17437199.2023.2248222