Mecanismo de defesa: Quando a mente se protege

Por: Joyceline Vatuva | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~4 minutos. Os mecanismos de defesa são estratégias inconscientes que o ego utiliza para reduzir a ansiedade e proteger a autoestima face a conflitos internos, um conceito introduzido por Freud e sistematizado por Anna Freud. Presentes em todas as pessoas, o seu impacto depende da frequência e rigidez com que são accionados. Vaillant (2000) demonstrou que defesas maduras humor, sublimação, antecipação predizem maior bem-estar e melhor saúde física décadas depois, enquanto Cramer (2000) alerta que a negação e a projecção persistentes dificultam relações e mantêm o sofrimento. Entenda como reconhecer os seus próprios padrões de defesa.

Mecanismo de defesa: Quando a mente se protege

MECANISMO DE DEFESA: Quando a mente se protege

 Joyceline Vatuva | Psicóloga Clínica (TCC) e Consultora

 

A mente como sistema de proteção emocional

Os mecanismos de defesa são estratégias psicológicas automáticas e, na sua maioria, inconscientes que a mente utiliza para reduzir a ansiedade, lidar com conflitos internos e proteger a autoestima perante situações emocionalmente difíceis. O conceito foi introduzido por Sigmund Freud e posteriormente desenvolvido por Anna Freud, que descreveu de forma sistemática as diferentes formas pelas quais o ego procura manter o equilíbrio psicológico face a exigências internas e externas conflitantes.

É importante destacar que estes mecanismos fazem parte do funcionamento normal da mente e estão presentes em todas as pessoas, independentemente do seu nível de saúde mental; o que distingue o seu impacto não é a sua presença, mas sim a frequência, a rigidez e o contexto em que são utilizados.

 

Como a mente utiliza mecanismos de defesa no dia a dia?

No dia a dia, os mecanismos de defesa podem manifestar-se de diversas formas. Por exemplo, uma pessoa que atribui a outra sentimentos ou intenções que, na realidade, lhe pertencem está a recorrer à projecção. Alguém que procura justificar um fracasso com explicações aparentemente lógicas pode estar a utilizar a racionalização.

Já a negação ocorre quando uma pessoa se recusa a aceitar uma realidade dolorosa, evitando o contacto consciente com factos que gerariam sofrimento excessivo, enquanto a sublimação consiste em transformar impulsos ou emoções difíceis em atividades socialmente valorizadas, como a arte, o desporto ou o trabalho.

Estes exemplos ilustram como a mente encontra, de forma automática, caminhos alternativos para gerir aquilo que, de outro modo, seria emocionalmente intolerável.

 

Protecção emocional: quando ajuda e quando prejudica?

As investigações em psicologia demonstram que os mecanismos de defesa podem ser adaptativos ou desadaptativos, dependendo da sua frequência, intensidade e contexto. Vaillant propôs um modelo hierárquico que distingue defesas patológicas, imaturas, neuróticas e maduras consoante o seu efeito sobre o funcionamento psicológico e interpessoal.

O autor demonstrou, num estudo longitudinal de várias décadas, que o predomínio de defesas maduras como o humor, a antecipação, a supressão e a sublimação está associado a maior bem-estar subjectivo, melhores relações interpessoais e até a uma saúde física mais favorável na fase tardia da vida (Vaillant, 2000).

Um estudo prospetivo que acompanhou participantes ao longo de cerca de setenta anos confirmou que a maturidade das defesas utilizadas na meia-idade prediz um menor grau de incapacidade física décadas mais tarde, em parte através do papel mediador do suporte social (Malone et al., 2013).

Em contrapartida, Cramer sublinha que o uso persistente de mecanismos menos maduros, como a negação ou a projecção, tende a dificultar a resolução de problemas, prejudicar os relacionamentos interpessoais e contribuir para a manutenção do sofrimento psicológico ao longo do desenvolvimento (Cramer, 2000).

 

Autoconhecimento: compreender a própria mente

Reconhecer os próprios mecanismos de defesa é um passo importante para o autoconhecimento e para a promoção da saúde mental. A psicoterapia oferece um espaço seguro para identificar esses padrões, compreender a sua origem e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com emoções, conflitos e desafios da vida.

Em vez de eliminar os mecanismos de defesa algo nem possível nem desejável, dado o seu papel adaptativo o objectivo terapêutico é fortalecer estratégias mais conscientes e maduras, favorecendo relações interpessoais mais saudáveis, maior equilíbrio emocional e melhor qualidade de vida.

 

Referências

Cramer, P. (2000). Defense mechanisms in psychology today: Further processes for adaptation. American Psychologist, 55(6), 637–646. https://doi.org/10.1037/0003-066X.55.6.637

Malone, J. C., Cohen, S., Liu, S. R., Vaillant, G. E., & Waldinger, R. J. (2013). Adaptive midlife defense mechanisms and late-life health. Personality and Individual Differences, 55(2), 85–89. https://doi.org/10.1016/j.paid.2013.01.025

Vaillant, G. E. (2000). Adaptive mental mechanisms: Their role in a positive psychology. American Psychologist, 55(1), 89–98. https://doi.org/10.1037/0003-066X.55.1.89