Sobrecarga laboral não é produtividade: O mito que está a adoecer profissionais e organizações

Por: Joyceline Vatuva – Psicóloga e Consultora | Portal Psicologia 24 Horas | Tempo de leitura: ~3 minutos. Durante décadas, consolidou-se a ideia de que trabalhar mais horas equivale a produzir mais. Mas a evidência científica contraria este mito: segundo o modelo Job Demands–Resources (Bakker & Demerouti, 2017), o desequilíbrio entre exigências elevadas e recursos insuficientes é um dos principais preditores de burnout e queda de desempenho. Um estudo conjunto da OMS e da OIT revelou ainda que longas jornadas aumentam significativamente o risco de AVC e doenças cardíacas. No contexto angolano, onde a acumulação de empregos e a pressão organizacional são realidades estruturais, compreender a diferença entre esforço e eficiência tornou-se urgente. A psicóloga Joyceline Vatuva explica o paradoxo da sobrecarga, e o que realmente aumenta a produtividade

Sobrecarga laboral não é produtividade: O mito que está a adoecer profissionais e organizações

Durante décadas, consolidou-se no imaginário profissional a ideia de que trabalhar mais horas significa produzir mais. No entanto, a ciência tem demonstrado exactamente o contrário: a sobrecarga laboral reduz a produtividade, aumenta o erro e compromete a saúde mental.

Num mundo cada vez mais competitivo e em contextos como o angolano, onde muitos trabalhadores acumulam funções ou rendimentos esta confusão entre esforço excessivo e eficiência tornou-se um problema estrutural.

 

Quando é que ocorre a sobrecarga laboral?

A sobrecarga laboral ocorre quando as exigências do trabalho ultrapassam os recursos físicos, emocionais e cognitivos do trabalhador.

Segundo o modelo Job Demands–Resources (JD-R), amplamente validado na psicologia organizacional, a sobrecarga surge quando há:

  • Elevadas exigências (tempo, pressão, volume de tarefas)
  • Baixo nível de recursos (autonomia, apoio, descanso, reconhecimento)

Esse desequilíbrio é um dos principais preditores de estresse, burnout e queda de desempenho (Bakker & Demerouti, 2017).

O que diz a ciência: trabalhar mais não é produzir mais.

1. Produtividade tem limite biológico

Estudos em economia do trabalho demonstram que, após um certo número de horas, a produtividade estagna e depois diminui.

Relatórios da Organisation for Economic Co-operation and Development mostram que países com jornadas mais longas não são necessariamente mais produtivos, pelo contrário, tendem a apresentar menor eficiência por hora trabalhada (OECD, 2019).

Ou seja: mais horas ≠ mais resultados.

 

2. Sobrecarga aumenta erros e reduz a qualidade

A fadiga cognitiva causada pelo excesso de trabalho compromete:

  • A atenção
  • A memória
  • A tomada de decisão

Pesquisas em psicologia cognitiva mostram que profissionais sobrecarregados cometem mais erros e tomam decisões menos eficazes (Pencavel, 2015).

 

3. Relação directa com burnout

A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como resultado de estresse crónico no trabalho não gerido.

A sobrecarga laboral é um dos principais factores de risco para:

  • Exaustão emocional
  • Distanciamento psicológico
  • Redução da eficácia profissional

(Maslach & Leiter, 2016)

 

4. Impacto na saúde física e mental

Trabalhar em excesso está associado a:

  • Ansiedade e depressão
  • Doenças cardiovasculares
  • Distúrbios do sono

Um estudo conjunto da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho revelou que longas jornadas de trabalho aumentam significativamente o risco de AVC e doenças cardíacas (WHO & ILO, 2021).

 

O mito da produtividade: por que ainda acreditamos nisso?

Mesmo com evidência científica, a cultura da sobrecarga persiste devido a crenças como:

  • “Quem trabalha mais é mais dedicado”
  • “Descansar é sinal de fraqueza”
  • “Preciso estar sempre ocupado para ser valorizado”

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), essas crenças são distorsões cognitivas que reforçam padrões de autoexigência extrema e culpa ao descansar.

 

Contexto angolano: quando a sobrecarga vira norma

Em Angola, a sobrecarga laboral assume características específicas:

1. Necessidade económica

  • Muitos trabalhadores acumulam empregos
  • Rendimento insuficiente frente ao custo de vida

2. Sector público

  • Déficit de recursos humanos
  • Sobrecarga de funções
  • Pressão administrativa
  • Insegurança psicológica

3. Sector privado

  • Alta exigência por resultados
  • Cultura de disponibilidade constante
  • Insegurança laboral

Resultado: trabalhadores exaustos, mas não necessariamente mais produtivos.

 

O paradoxo da sobrecarga

A sobrecarga cria um ciclo contraproducente:

Mais trabalho → mais fadiga → menos eficiência → mais erros → mais retrabalho → mais trabalho

No final, há mais esforço e menos resultado.

 

Sinais de que a produtividade já foi comprometida

  • Trabalhar muitas horas sem resultados proporcionais
  • Dificuldade de concentração
  • Aumento de erros simples
  • Sensação constante de urgência
  • Cansaço persistente
  • Sensação de que vai colapsar  

Estes sinais indicam que já não se trata de produtividade, mas de sobrecarga disfuncional.

 

O que realmente aumenta a produtividade (baseado em evidência)

1. Descanso estratégico

Pausas regulares restauram a energia mental e melhoram o desempenho (Sonnentag & Fritz, 2015).

 

2. Gestão de energia, não apenas de tempo

A produtividade depende mais da qualidade da energia do que da quantidade de horas.

 

3. Clareza de prioridades

Focar nas tarefas de maior impacto aumenta a eficiência.

 

4. Ambiente organizacional saudável

Organizações produtivas:

  • Equilibram carga de trabalho
  • Promovem bem-estar
  • Valorizam descanso, resultados, não apenas esforço

 

5. Intervenção psicológica

A Terapia Cogitivo-Comportamental ajuda a:

  • Reduzir o perfeccionismo
  • Trabalhar crenças de autoexigência
  • Desenvolver limites saudáveis

 

Conclusão

A ideia de que sobrecarga laboral é sinónimo de produtividade não resiste à evidência científica. Pelo contrário, trata-se de um dos principais factores de risco para o adoecimento psicológico e a ineficiência organizacional.

Produtividade sustentável não se constrói com exaustão, mas com equilíbrio.

Num contexto como o angolano, onde as exigências são elevadas e os recursos muitas vezes limitados, torna-se ainda mais urgente mudar a narrativa:

Trabalhar melhor é mais importante do que trabalhar mais.

 

Referências

International Labour Organization. (2016). Workplace stress: A collective challenge. https://www.ilo.org/global/topics/safety-and-health-at-work/resources-library/publications/WCMS_466547/lang--en/index.htm

International Labour Organization. (2022). Safe and healthy working environments as a fundamental principle and right at work. https://www.ilo.org/global/topics/safety-and-health-at-work/lang--en/index.htm

International Labour Organization & World Health Organization. (2022). Mental health at work: Policy brief. https://www.who.int/publications/i/item/9789240057944

World Health Organization. (2019). Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11). https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases

World Health Organization. (2022). Mental health at work. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-at-work

World Health Organization & International Labour Organization. (2022). Mental health at work: Policy brief. https://www.who.int/publications/i/item/9789240057944

Maslach, C., & Leiter, M. P. (2016). Understanding the burnout experience: Recent research and its implications for psychiatry. World Psychiatry, 15(2), 103–111. https://doi.org/10.1002/wps.20311

Bakker, A. B., & Demerouti, E. (2017). Job demands–resources theory: Taking stock and looking forward. Journal of Occupational Health Psychology, 22(3), 273–285. https://doi.org/10.1037/ocp0000056

Schaufeli, W. B. (2017). Burnout: A short socio-cultural history. In S. Neckel, A. K. Schaffner, & G. Wagner (Eds.), Burnout, fatigue, exhaustion (pp. 105–127). Palgrave Macmillan